SANGUE BOM
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
(Para o Caetano Veloso que quis um dia saber a minha raça)
Nunca sofri de raça
Saiba o senhor,
Minha pele é muito boa
Tenho sangue mouro de Goa
E sangue louro de Kinshassa.
Minha raça é meio errante
Saiba o senhor
Num dia sou quase zulo
no outro índio xavante
mulato, baço, preto-fulo.
Raça é superstição
De gente mal arraçada
Saiba o senhor.
Eu não creio em raça, não
raça danada.
Raça é superstição
De gente mal arraçada.
Eu sou o avesso da raça
Saiba o senhor,
Minha alma é muito à toa
Gosto d’ ameijoa com jimboa
A toda a mistura acho graça.
Minha raça é um jardim
Saiba o senhor
Num dia sou quase azul
No outro cor de marfim
Sou Coxim, sou Bissau e sou Cabul.
Emilio: Ecos da tragédia no tempo
Há um ano
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