quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SANGUE BOM

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


(Para o Caetano Veloso que quis um dia saber a minha raça)



Nunca sofri de raça

Saiba o senhor,

Minha pele é muito boa

Tenho sangue mouro de Goa

E sangue louro de Kinshassa.



Minha raça é meio errante

Saiba o senhor

Num dia sou quase zulo

no outro índio xavante

mulato, baço, preto-fulo.



Raça é superstição

De gente mal arraçada

Saiba o senhor.

Eu não creio em raça, não

raça danada.

Raça é superstição

De gente mal arraçada.



Eu sou o avesso da raça

Saiba o senhor,

Minha alma é muito à toa

Gosto d’ ameijoa com jimboa

A toda a mistura acho graça.



Minha raça é um jardim

Saiba o senhor

Num dia sou quase azul

No outro cor de marfim

Sou Coxim, sou Bissau e sou Cabul.

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