terça-feira, 14 de outubro de 2008

FLIPORTO 2008 : TRILHAS DA DIÁSPORA

Dentro da linha de internacionalização que a Fliporto vem adotando desde o ano passado, com ênfase na integração dos escritores latino-americanos, desta vez aprofundamos inda mais a discussão sobre nossa identidade cultural, através do prazer da leitura A pergunta, trazemos de Retamar : o que seria da nossa história, da nossa cultura, sem a história e cultura de Caliban, a quem Próspero toma a ilha e o obriga a falar uma outra língua ?

Coube a Aimé Césaire adaptar em tempos modernos a Tempestade de Shakespeare para um teatro negro, já havendo, contudo, em 1878, publicado Renan o seu drama com o mito desse nome, anagrama para canibal, registro e condição que fora objeto de ensaio de Montaigne em 1580, o mesmo ano da morte do ontem degredado e hoje celebrado Camões.

Simon Bolívar, em 1819, já havia lembrado que somos um composto de África e América, porque a própria Espanha também teria sangue africano, veja-se o período de oito séculos sob o domínio dos mouros, o que também se aplica a Portugal. Somos África na América Latina, somos África da América Latina. Somos afro-latinos, afro-latino-americanos.

Trilhas da Diáspora : Literatura em África e na América Latina é o tema da Fliporto deste ano. Escritores de destaque na África Lusófona estão conosco : Pepetela,(Prêmio Camões) Marcelino dos Santos, José Eduardo Agualusa. Luis Carlos Patraquim, Os dois primeiros se inscrevem na história africana não apenas pela literatura, mas pelo exemplo de vivo combate pela libertação de Angola e Moçambique do sistema colonial .Já os dois últimos representam o que há de melhor na ficção angolana e poesia moçambicana de sua geração, mantendo a simbiose da fidelidade à raiz do lugar sem exclusão do cosmopolitismo contemporâneo. Também de Angola vem Onjaki,o jovem finalista do Prêmio da Portugal Telecom deste ano.

Ana Paula Tavares, Paulina Chiziane e Amélia Dalomba prometem abalar os que morrem de curiosidade pela literatura de autoria feminina africana, sendo que a Amélia estará também lançando o seu último cd, em que trabalha com vários músicos de África e Europa. São convidados da Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e do Cabo Verde o Tony Tcheca, Manuel Teles Neto, Samuel Gonçalves. O primeiro estará recebendo homenagem dos alunos de Letras guineenses que fazem intercâmbio em Pernambuco com a Ufpe.Outros nomes importantes são o moçambicano Luís Cezerilo e o angolano Francisco Soares, que junto com a curadoria literária Fliporto e o Chefe do Departamento de Letras da Ufpe Alexandre Maia integram a coordenação das Lusografias em seu V Seminário.

A Fliporto , através da sua curadoria literária, dá prosseguimento aos seminários de Lusografias, com presença representativa dos professores universitários que se dedicam ao estudo da África e suas literaturas : Patrick Chabal,do King’s College de Londres,José Manuel Esteves, da Univ.Paris-Ouest La Défense, Moema Parente Augel, da Univ.de Bielefeld, na Alemanha, Saulo Neiva, da Univ. de Clermont Ferrand, na França. Nomes como Margarida Paredes,Gilda Santos,Rita Chaves, Yeda Pessoa de Castro, Alexandre Maia, José Jorge de Carvalho, Roberto Mota, Roberto Benjamim, José Flávio Pessoa de Barros.

Ou portugueses voltados às literaturas brasileira e portuguesa pós-colonial, como Arnaldo Saraiva, do Porto e Ana Paula Arnaut, de Coimbra. Sem esquecer a prata da casa, professores da Universidade Federal de Pernambuco, muitos do Departamento de Letras, além de Walteir Silva, Diretor do Núcleo de Estudos Brasil-África. A Professora Benita Sampedro Viscaya, da Universidade de Hofstra, em Nova Yorque, estará falando sobre a literatura de sua especialidade, no caso a da Guiné Equatorial.


Porque continua o abraço latino-americano. Consta da programação uma palestra do cubano radicado na Venezuela José Millet sobre o vodu em Cuba. Aliás a Fliporto traz este ano o argentino Alfredo Cordiviola conduzindo painel com os cubanos Waldo Leyva, poeta também líder de um grupo de trovadores em Havana e Nelson Simon, de Pilar Del Rio. Volta ao Brasil o poeta Rei Berroa, da República Dominicana, professor na Universidade George Mason em Washington, que teve sua poesia recentemente celebrada no Egito e chegam Fernando Nieto Cadena, equatoriano radicado no México, Vicente Gómez Montero, coordenador do Festival Ibero-americano de poesia Carlos Pellicer Câmara e Francisco Fernandez, diretor do Festival Internacional de Poesia de Granada, com o qual a Fliporto assinará documento de Irmanamento, ao final do Encontro.Também estará presente o Luiz Arias Manzo, presidente do Movimento Poetas del Mundo, empossando o curador geral Antonio Campos como cônsul em Ipojuca e Pernambuco. Da América Latina, haverá sessão especial de leitura de poemas do peruano César Vallejo e da Argentina/suíça Alfonsina Storni, assinalando os setenta anos de seu desaparecimento.

Do Brasil estará presente aquele que é considerado o nosso grande africanista, poeta Alberto da Costa e Silva, que várias vezes exerceu a diplomacia naquele continente. Também os poetas Thiago de Mello, Affonso Romano de Sant’Anna,que lança novo livro ao seu público cativo em Pernambuco e Cláudio Willer,que vai ministrar uma oficina sobre a Geração Beat, matéria de sua especialidade. Da Academia Brasileira de Letras virá o poeta e professor Antonio Carlos Secchin, que fará a palestra alusiva ao centenário da morte de Machado de Assis. Já o acadêmico Domício Proença Filho é responsável pelo painel que discute a questão do acordo ortográfico, também objeto de análise pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa, assunto na ordem do dia em todos os lugares envolvidos com a leitura.


Os painéis ligados à literatura brasileira um deles coordenado por Raimundo Carrero, contam com a presença de autores como João Paulo Cuenca, Ronaldo Bressane, João Gabriel de Lima, Cláudio Willer, Vicente Franz Cecim, José Neumanne Pinto, Linaldo Guedes, José Mário Rodrigues, Homero Fonseca, acolhendo fraternalmente o poeta laureado da Califórnia Quincy Troupe, professor de escrita criativa em Nova Yorque e considerado um dos melhores declamadores do mundo. O poeta americano é também editor da revista Black Renaissance Noir e vem à Fliporto acompanhado de sua mulher Margaret Troupe no dia ainda da eleição para a presidência dos Estados Unidos. Seus poemas serão distribuídos ao público Fliporto, em tradução de Marina Martenssom e Lucila Nogueira, que estará em painel com o curador literário da OFF FLIP de Paraty Ovídio Poli Júnior e lançando livro sobre Josué de Castro em companhia de Xico Sá e Vandeck Santiago, na homenagem que é prestada ao centenário do escritor de Geografia da Fome.

Sobre as homenagens, registre-se a importância do centenário de Guimarães Rosa, que estará trazendo a Pernambuco as pesquisadoras Sandra Vasconcelos , curadora do acervo Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros da Usp e Ana Luiza Martins Costa, esta última pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional e autora do roteiro de Mutum, filme a partir de conto do autor mineiro que estará sendo exibido na Fliporto. O painel, conduzido pelo estudioso de Guimarães Paulo Gustavo, conta ainda com a presença de Bráulio Tavares, que estará lançando seu livro sobre o romancista de Grande Sertão e Veredas, que juntamente com Clarice Lispector inovou no século XX a literatura brasileira, assim como ocorrera com Machado no século XIX.

Lauro Junkes, presidente da Academia Catarinense de Letras, estará ao lado do poeta e professor à ngelo Monteiro, conversando sobre os 110 anos da morte do poeta afro-descendente Cruz e Sousa, que instaura no Brasil o simbolismo europeu e é considerado o maior poeta negro do Brasil. Sobre ele lserá exibido o filme de Sylvio Back Curz e Sousa o poeta do desterro.No entanto, uma linha de força da Fliporto é a homenagem a Solano Trindade, quando Inaldete Pinheiro e Cláudia Cordeiro estarão tecendo considerações sobre seus versos, sucedidas pelo depoimento da filha Raquel Trindade. Também os setenta anos da tradução francesa de Jubiabá, de Jorge Amado, estão sendo assinalados por Lucilo Varejão Neto e Myrian Fraga, presidente da Fundação que leva o nome do escritor em Salvador. Ainda da Bahia, será feito um recital assinalando os 140 anos de encenação de O Navio Negreiro, de Castro Alves, com o poeta Sílvio Romero e as declamadoras Marina Martensson, Michele Nogueira e Tatiane Rose.

Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco, Aimé Césaire, Doris Lessing, Cláudio Aguiar, Frederico Pernambucano de Melo, Jomard Muniz de Brito e Marcus Accioly são autores abordados nos vários momentos da programação literária da Fliporto, que tem toda uma tarde dedicada à geração 65 de escritores pernambucanos : duas sessões de saudade e tributo a Sérgio Moacir de Albuquerque e Alberto da Cunha Melo, recentemente desaparecidos, com a edição dos 40 anos de Murais da Morte, de autoria do primeiro, e um recital dos alunos da Fafire com poemas do segundo, que estará na Fliporto com exposição permanente da Biblioteca pública estadual, juntamente com Sem Lei nem Rei, mostra especial de Maximiano Campos. Ainda naGeração 65, uma homenagem especial dos alunos da Oficina Literária de Raimundo Carrero, com lançamento posterior de livros de Ângelo Mointeiro, Jaci Bezerra e José Rodrigues de Paiva.

No último dia,um domingo, Luzilá Gonçalves Ferreira comanda painel de literatura de mulheres, e acontecem os Diálogos Luso-brasileiros,na seqüência de palestra de Gilda Santos, e pronunciamentos de Maria de Lourdes Hortas, Laura Areias, Elisabete Dias Martins e Ermelinda Ferreira, com lançamentos de livros dos painelistas e escritores como Admaldo Matos, André Cervinskis, Rinaldo de Fernandes, Lourdes Sarmento, entre outros. .Maria Cláudia Azambuja irá conduzir debate com Evaristo Filho, Cristiano Ramos e Renato Lima sobre televisão e literatura, assunto que será objeto de mais um painel a seguir com o diretor de comunicação da Rede Globo de Televisão Luís Erlanger, onde estarão opinando Maria Adelaide Amaral, Edney Silvestre e Zeca Camargo. O quarteto forte de África da Fliporto deste ano volta para encerrar com chave de ouro, no caso Pepetela, Marcelino dos Santos, José Eduardo Agualusa e Luís Carlos Patraquim e o ensaísta e músico José Miguel Wisnik se apresenta em uma de suas melhores aulas show com Arthur Nestrovski, especialmente preparada para o público de Porto de Galinhas.

Durante o evento, haverá exibição dos filmes africanos vencedores do Festival de Tarifa, filmes sobre Solano Trindade, Cruz e Sousa e Guimarães Rosa,roda especial de poesia paraibana com doze convidados, outra pernambucana, mais uma chamada fliportiana, porque formada pelos poetas convidados deste ano, e a participação dos grupos de poesia Nós Pós e Movipoesia, além de Poema Instalação de Wellington de Melo e Exposição de Pedro Buarque. Em restaurante do balneário a ser deliberado, acontecerá o lançamento especial do livro O Negro Açúcar, de Letícia Cavalcanti, Editora Fliporto, que trata da influência da África no Brasil gastronômico, especialmente escrito por solicitação da curadoria literária para a IV Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas, que será distribuído como brinde aos convidados.

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