domingo, 19 de outubro de 2008

DEBATE SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO NA FLIPORTO 2008

O poeta Luis Carlos Patraquim na Fliporto 2008

O escritor Pepetela em Porto de Galinhas


com Patrick Chabal e Antonio Carlos Secchin


com Paulina Chiziane e Marcelino dos Santos



Luz de Agualusa





Luz de Marcelino dos Santos






A FLIPORTO TRAZ DOIS PAINÉIS SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO :
UM COM O MEMBRO DA ABL PROFESSOR DOMÍCIO PROENÇA FILHO E OUTRO COM O ESCRITOR AGUALUSA, DA EDITORA LÍNGUA GERAL, QUE PUBLICA AUTORES AFRICANOS, PORTUGUESES E BRASILEIROS

VISÃO DO NOSSO CONVIDADO FLIPORTO PEPETELA SOBRE O ACORDO :

Lamento dizer, mas esse acordo não tem importância.
Se não é radical, então não vale a pena.

PEPETELA








QUINCY TROUPE PELA PRIMEIRA VEZ EM PORTUGUÊS








As Assinaturas do Tempo


As assinaturas compulsórias do tempo estão fazendo com que as pegadas desapareçam
traçando transversalmente chãos de deserto soprados pelo vento,

jornais jogados nas ruas frias e vazias,
rasgados, transformam-se em asas navegando como arraias
nadando pelo banho de um mar de esmeralda,

história são momentos tirados de pilhas diferentes
segurando fatos, vozes limpas como mariscos
num prato, desintegrando-se em fitas usadas,
partindo-se nos cilindros de gravadores de fitas antigos,

como fotos sumindo em jornais amarelados

Trad. Marina Martensson



VOZES MULHERES



CONCEIÇÃO EVARISTO


A voz da minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue e fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.


SONHO DE MÃE NEGRA

MARCELINO DOS SANTOS


Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou
Que o amendoim ontem acabou.

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho irá à escola
À escola onde estudam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades
Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada
Na estrada onde passam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E escutando
A voz que vem do longe
Trazida pelos ventos

Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver.

Nenhum comentário: